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Dionísio Faria e Maia

Opinião

"De Lá para Cá. Tele usos"

Dionísio Faria e Maia
2018-06-12

 

Para quem não sabe, ou ainda não foi informado por aqueles que se apregoam pais ou parentes da solução telemétrica para os utentes do nosso Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira, convém esclarecer nesta fase não só a questão técnica, mas também a questão política do caso.
Todos sabemos que a política dos casos é mais mediática do que a política das causas; e neste caso não se fugiu à regra. O CDS/PP em comunicado reivindica o sucesso desta concretização; O PSD, indigna-se com o suposto desrespeito pelos doentes, pela não valorização desta vitória tecnológica para o hospital.
Pelo caminho inventaram-se muitas mortes devido à falta desta tecnologia, e até houve quem com responsabilidade técnica nesta área, chamasse de ignorantes aos que não entendiam a importância desta técnica salvadora e emergente.
O que ficou por esclarecer foi como se chegou a este desentendimento interno no HSEIT e quantos monitores de parâmetros vitais existem no HSEIT, para utilização nos casos que necessitem efetivamente de monitorização, assim como outras condicionantes que só o hospital conhecerá.
Tecnologicamente falando, a telemetria de monitorização cardíaca e não só, porque presentemente podem monitorizar-se por telemetria muitos outros parâmetros vitais, tem um uso nas Unidades Intermédias de Cuidados Coronários assim como noutros departamentos médicos, com algumas premissas que interessa esclarecer, assim como alguns mitos associados à monitorização que interessa também desmistificar.
Estão publicados e documentados estudos, pela American Heart Association, que evidenciam e alertam para o facto de que existe muitas vezes a perceção errada, de que pondo os doentes em monitorização por telemetria levaria a um pronto reconhecimento e intervenção atempada nas situações com alterações que punham a vida em risco, pondo ênfase que isto frequentemente não acontece.
Mais ainda, estes estudos reportam um fenómeno conhecido por quem trabalha em cuidados intensivos que é o da fadiga dos técnicos de saúde perante falsos alarmes sonoros ou luminosos que são ainda muito mais frequentes neste tipo de monitorização levando ao aumento do risco, para o paciente, por inadequada atenção e atraso na resposta à emergência médica; daí que o cálculo de índices de gravidade e de probabilidades de existência de complicações que ponham a vida em risco, tenham maior fiabilidade do que a telemetria na atitude e no posicionamento do tipo, local de monitorização e presença física de médico e de enfermagem especializados.
Toda a tecnologia da saúde está e deve estar direcionada para a melhoria dos resultados e em última instância para a sobrevida a um evento intra-hospitalar. A telemetria é uma técnica adicional e não uma terapêutica, é mais uma técnica de estudo de eventos e não um dispositivo de atuação em urgência como o são os pace-makers e os desfibrilhadores implantados.
Ter esta técnica de monitorização no HSEIT, sendo um desiderato da equipa que lá trabalha e já o conseguiu, é louvável, como sei que o utilizarão no benefício dos nossos doentes.
Lamentável é a sua politização à custa da suposição de que morreram doentes por falta de cuidados no HSEIT, numa acusação que fere o profissionalismo de quem lá trabalha.
Tudo o resto é, mais uma vez, um tele uso da desgraça alheia com fins eleitoralistas à custa de suposições e de desinformação.

 

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