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Dionísio Faria e Maia

Opinião

"De Lá para Cá. Gerontocómios"

Dionísio Faria e Maia
2018-04-04

 

Existem pelo menos duas formas de solidão: a solidão escolhida que permite estar só; e a solidão imposta, o isolamento de que se sofre quando os outros, que gostaríamos de ver, não estão presentes. Assim abordam Yves Gineste e Jèrome Pellissier as mudanças sociais associadas à institucionalização, no seu livro “Humanitude. Cuidar e Compreender a Velhice”.
Sob o eufemismo de Lar de Idosos ou de Residências Assistidas, proliferam com uma pressão social cada vez maior os gerontocómios. Sob o pretexto de cuidarmos dos velhos, entregamo-los a outros para o efeito.
Os políticos, de preferência na oposição, e outras “forças” sociais associadas aos media, reclamam mais Lares para uma população idosa em crescendo, como se a inevitabilidade de acabarmos todos em gerontocómios fosse um “must” civilizacional.
Estamos a envelhecer, mas o que aconteceu aos lares onde se constituíram famílias, criaram filhos e brotam netos, numa esperança geracional posta pelos sacrifícios e projetos de vida melhores para a geração seguinte?
Até podemos atribuir a culpa à emigração que esvaziou gerações jovens e deixou pais que agora no abandono e na velhice, mais não têm que um património imóvel velho como eles e inadequados; duplamente vulneráveis, porque sem meios adequados e sem alguém que solidariamente, obrigatoriamente até, como o são os filhos, não lhes podem proporcionar o apoio necessário porque não estão presentes.
Até podemos atribuir outras causas como as dos que têm de trabalhar longe de casa, muito ocupados com o cuidar dos filhos, com o pagamento da casa que compraram com juros a 40 anos e a pagar o carro, a TV e a internet; e que não têm tempo, nem espaço para minimizar a solidão e a perda de autonomia dos pais.
Sabe-se que nem sempre é assim. Que há quem se preocupe e quem se sacrifique. Que há quem não faz mais pelos seus velhos, porque não pode. Bem hajam!
Mas fazer mais é o quê? Facilitar a institucionalização ou promover ajudas em ambiente comunitário, adequando as ajudas ao grau de incapacidade, mantendo as referências e a identidade sempre que possível, no seu ambiente, num tempo e num espaço que são as fronteiras entre o querer físico e o poder da mente.
Mais Lares ou mais família, mais apoio comunitário ou mais gerontocómios, com regras, horas para levante, higiene e alimentação e até para visitação; mais solidão ou outro tipo de solidão?
É importante que a sociedade exija menos as soluções mais fáceis, principalmente se as facilitarmos como escolha. Os velhos não são propriedade do Estado. Têm origens, descendentes e responsáveis por eles, pelo menos na mesma medida em que eles se responsabilizaram pelas gerações futuras.
E, se assim não puder ser, a solidariedade social, esta competência do Estado e da Região, deve poder encontrar outras respostas.

 

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